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Fobias

Falando das coisas que tenho medo, insetos são a primeira. Não baratas ou besouros, tenho medo daqueles tão pequenos que quase não vemos, que nos mordem sem permissão ou que nos escalam na maior cara de pau. Se uma coisa leva a outra, foi por isso que resolvi matar quantas formigas encontrar no meu caminho. De preferência afogadas, mas não necessariamente.

Tenho medo de pessoas que olham nos olhos, porque às vezes a sinceridade do outro pode doer muito se ele não sabe como usar isso. Mas medo mesmo eu tenho de pessoas que estão sempre desviando o olhar, que falam comigo olhando pra porta, pra janela ou pra qualquer outro objeto que não entenda suas mentiras e desculpas. Tenho pavor de desculpas, porque elas viram hábito antes mesmo que a gente perceba. E das mentiras tenho fobia, porque além de desnecessárias elas são um golpe baixo, que ferem fundo e deixam sempre uma cicatriz feia e mal fechada.

Tenho medo da cobrança que me faço, porque se alguma coisa falhar eu vou ficar mais frustrada do que deveria.

Tenho horror a números, sejam eles o número da minha identidade ou o meu saldo no banco.

Tenho pavor de tédio e marasmo, porque começo a me viciar em cada coisa... e além disso sobra muito tempo pra pensar em assuntos e pessoas que não deveria, e pra me fazer mais cobranças e me deixar mais nervosa a respeito das minhas indecisões.

Tenho horror a bichinhos da luz, aqueles que atacam no verão. Cara, isso me tira do sério. Prefiro viver no escuro a encarar essa praga. Eu fujo, corro deles e não adianta, os idiotas me perseguem e eu entro em pânico daqueles que só um Lexotan resolve. Ai que medo que eu tenho disso, entra na minha top 5 list com certeza.

Tenho medo de nunca conhecer realmente as pessoas, porque é sempre maravilhoso se surpreender com elas, mas a decepção que fica quando você descobre que alguém não é exatamente aquilo, putz... é como se uma parte desse alguém morresse e o que sobrasse fosse aquela pilha de papel que você não quer mais e que ao mesmo tempo não consegue jogar fora, quem sabe naquela útlima folha... e as coisas nunca estão onde você procura. Isso me aterroriza também, saber que o óbvio caminha do nosso lado, e, pior, que mesmo sabendo disso a gente sempre olha pro lado oposto.

Tenho medo de ser tarde demais pra fazer algumas coisas e de nunca ser pra fazer outras.

Tenho medo de coisas que eu sinto, da loucura que tenho por certos costumes que nunca vou mudar, dessa minha mania de ficar longe às vezes e de demorar muito a voltar. Tenho medo da minha capacidade de abstração, porque perco conversas inteiras e to sempre na estação errada do bonde.

Tenho muuuuuito medo do dia que tiver que parar de dançar, número 1 da minha top 5 list. É o tipo de coisa que me apavora tanto quanto a morte, porque vai ser a primeira etapa dela. Eu acho.

Nesse momento eu tenho mais medo de estar pensando tanto numa pessoa que não devia...

 

Música na vitrola – Aimee MannAnd you're powered by the hopeful lie that it's just around the bend / and when this, by default comes screeching to a halt /
let's hope that you know what to do to start it up again / Driving sideways hitting scan on the radio so she can sing along / and she'll sit thinking you're going to handle it until she's proven wrong

 

 



 Escrito por Juju às 23h10 [ ] [ envie esta mensagem ]



Lá vem o sol, tchurururu

Eu... hoje eu quero tylenol na veia. E só não mando aquele inseto que atrapalhou meu sono ontem pro vulcão porque ele amanheceu morto. E eu assassina. Mais uma face da minha adorável personalidade. Insetofóbica. Principalmente formigafóbica.

ouvindo Mutantes - "Eu quis cantar minha canção iluminada de sol (...) mas as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer." by Caetano Veloso e Sir ministro da cultura. Então tá explicado!



 Escrito por Juju às 14h34 [ ] [ envie esta mensagem ]



Desconexões

Hoje no meu mundo paralelo eu não acordei gripada. E também não espirrei muitas vezes seguidas e muito menos senti a cabeça pesada. Hoje no meu mundo paralelo eu tomei decisões importantes a respeito da minha vida e tudo ficou calmo e tranqüilo. No meu mundo paralelo ta fazendo frio também, mas eu to tomando um chocolate quente com creme em frente à lareira, com amigos em volta, jogando Imagem e Ação. Meu mundo paralelo hoje ta muito mais maneiro que esse aqui, é por isso que to indo pra lá.

 

Pra me proteger do frio eu comprei um casaco. Pra me proteger do seu frio eu fui morar no sol. E comecei a te achar tão ridículo que até agora não acredito como não percebi isso antes...

 

Em tempos de orkut o telefone revelou-se uma invenção revolucionária. Além de falar com pessoas ao redor do globo em tempo real você ainda escuta a voz delas. Não é o máximo?! Melhor que isso só o tal do encontro que ouvi falar outro dia. Você fica cara a cara com a pessoa, conversa, ouve a voz, sente o cheiro... Bizarro, né? Alguém ta afim se experimentar????

 

Além de associar músicas a pessoas e momentos, eu também as associo às estações do ano (vá entender...). Hoje por exemplo, nada melhor do que ouvir Rod Stewart  cantando standards americanos. Na verdade tem, no meu mundo paralelo alguém vem e me tira pra dançar. Alguém que tem a habilidade do Carlinhos de Jesus e a aparência do Jonny Depp, óbvio. Cara, o que eu tô fazendo aqui ainda?!



 Escrito por Juju às 14h26 [ ] [ envie esta mensagem ]



Winter, spring, summer or fall, all you have to do is call

Meus amigos são do tipo que quando vou deixa-los em casa a gente engata uma daquelas conversas infinitas que nos fazem perder a noção das horas. Do tipo que chegam a conclusões tão simples junto comigo e que vibram mesmo assim, como se tivéssemos descoberto o novo mundo. São do tipo que encaram aqueles programas de índio brabos e que me metem em algumas roubadas também. E no fim do dia a gente ainda ri de tudo. São do tipo que me dão idéias pra faculdade e não me deixam abandonar tudo e que me ligam desesperados pedindo um socorro praquele trabalho que nem começaram e que é pro dia seguinte. Meus amigos são do tipo que se divertem com pouco e que ficam tão satisfeitos num botequim tomando cerveja quanto num festão tomando prosecco, é claro que são também do tipo que aproveitam mais a ressaca do segundo. São do tipo que vem correndo quando alguma coisa dá errado, e que vem correndo também pra comemorar aquele sonho que se realizou. Meus amigos são do tipo que falam a verdade com a autoridade de quem pode, porque me conhecem e sabem como fazer isso da melhor forma. São do tipo que me mandam tomar um sol, me mandam comer mais e me mandam ir a merda, três coisas tão importantes como me chamarem pra sair quando eu insisto em não fazer nada. Meus amigos são do tipo que marcam uma viagem e furam (é vocês mesmas, suas pregas!), mas que assim como eu não perdem a esperança de um dia termos horários e dias em comum, e por isso eles combinam toda semana alguma coisa nova, que sem dúvida não vai acontecer. Um almoço, um chopp e até uma viagenzinha à Europa. Meus amigos são assim, básicos e otimistas. O tempo todo. Meus amigos se afastam por tempos às vezes longos, somem, não aparecem. E um belo dia eles voltam assim sem maiores explicações, e eu também não pergunto nada porque se eu sou amiga deles, devo fazer o mesmo. Meus amigos riem o tempo todo, além de otimistas eles têm um senso de humor incrível, e uma capacidade invejável de falar besteira. Muita besteira. Meus amigos pensam demais, são inteligentes e ambiciosos em serem melhores. São do tipo que querem sempre crescer e ver mais longe. Meus amigos são do tipo que preenchem com grandeza o significado da palavra. Que me mandam chorar quando eu preciso, que me mandam parar quando eu exagero, que me mandam sorrir quando eu to ficando amarga, que me tiram de casa quando eu to ficando colada na cama, que riem comigo quase tanto como eu. Meus amigos são todos lindos e lindas porque deixam transparecer o que realmente são. Meus amigos são loucos porque me agüentam, e são deuses porque me guiam.



 Escrito por Juju às 13h52 [ ] [ envie esta mensagem ]



Clichê - não sei que parte também...

Pra todo mundo que me conhece muito bem e sabe o quanto eu posso ser insuportável e mesmo assim me tem como amiga, PARABÉNS PELO DIA DE HOJE (eu sei que vocês merecem mais que isso, mas hoje não vai dar, tá chovendo demais...)!

ouvindo Radiohead, barulhinho mais que bom!

 



 Escrito por Juju às 17h03 [ ] [ envie esta mensagem ]



Pubs, Holland Park, Tate Gallery, Hugh Grant e outras lembranças

Eram mais ou menos 7 horas da manhã quando a criança mais nova da host family abria o berreiro. Era sempre dez minutos antes do meu despertador tocar. A pontualidade britânica existe e começa cedo. Depois do café o ônibus, mãos pra dentro do bolso do casaco tentando não congelar, discman com o CD da Dido (“my tea’s gone cold I’m wondering why”) e o ônibus vinha me buscar pontualmente, como programado na tabela afixada no poste de luz. Entrávamos na Banbury Road e lá saltava eu, atravessava a rua para a escola mais linda de que se tem notícia e ia aprender as sutilezas da língua inglesa. Ficava um pouco no jardim tomando chocolate quente e saciando meu vício enquanto olhava aquelas flores que não paravam de se abrir, e adorava sentar na grama quando fazia sol pra fazer correntes de margaridas com as minhas amigas suíças. E então a chuva começava, todo dia no mesmo horário, justamente o momento de descer a Banbury Rd para comer um sanduíche recheado de maionese com qualquer coisa. A coisa mais gostosa era entrar na lanchonete, tirar as luvas e ficar perto dos pães quentinhos... Caminho de volta pra escola, mais chuva com horário marcado, e quando entrava na sala e começava a degelar o sol saía. Tudo calculado. E então voltava pra casa, e a maior felicidade era aquele jantar indiano com muito curry, as crianças gritando, perguntando se no Brasil tinha flauta (?!) e outras coisas um pouco mais tecnológicas pra nação tupiniquim como televisão e DVD. Eu dizia calmamente que não, que aqui a gente anda de cipó em cipó. Há há. Claro que não, inglesinhas tem senso de humor, mas foi melhor não arriscar. À noite lá ia eu, tomar cerveja em algum lugar, ouvir um mix de sotaques com os amigos da escola, ouvir jazz e tomar Sex on the beach no Freud, lugar que eu adotei e que até hoje vou quando consigo ingressos pro meu mundo paralelo. Tudo na Inglaterra tem gosto de felicidade (tomei emprestado de um amigo), os fins de semana em Londres, o metrô que era quase um labirinto, a feira de antiguidades em Notting Hill, Camdem Market e os loucos que habitam a região, o Holland Park e o Kensington Park, meus preferidos, o Design Museum à beira do Tamisa e a Tate, a Oxford Street e a Harrods que me enlouquece, os sanduíches de supermercado... e as chuvas, que são tão diferentes do que essa que ta caindo lá fora. Tem dias que dá uma saudade daquela terra, uma vontade de me mandar daqui. Tipo hoje. Tô precisando comprar um guarda-chuva, tem lugar melhor que o Reino Unido?  E ao contrário da maioria dos ingleses, eu a-do-ro o Hugh Grant!!!

 

obs. Uma delícia é alguém que você gosta muito dizer que você é uma dessas pessoas que fazem parte do lado A da vida!



 Escrito por Juju às 17h34 [ ] [ envie esta mensagem ]



Grupo de apoio

Oi, meu nome é Julia e eu sou DACOB (dependente anônima do Comitê Olímpico Brasileiro) há um ano e 11 dias. Tudo começou em 6 de julho passado, quando pela primeira vez eu violei as regras antidoping e me envolvi com a substância proibida Remorium. Usei uma vez, no dia seguinte repeti a dose, e desde então não consegui mais parar. Utilizei diversos métodos de ingestão da substância, telefônico, internético, pessoal, intra-pessoal, ultra-pessoal e outros que todos aqui devem ter praticado também. No início tentei resistir, não ia aos treinos, não me envolvi de forma tão intensa, mas minha performance foi melhorando tanto que tive de tomar parte no processo e me comprometer 100%. Passei a tomar Remorium todos os dias, e à medida que o tempo ia passando mais eu dependia dos efeitos do doping. Comecei a assitir treinos e competições, a buscar patrocínio, a vasculhar a internet para encontrar informações e fotos durante as competições internacionais, até passei a gostar de arroz integral. Até que um dia eu caí na real... estava perdendo os amigos, estava perdendo o amor daqueles que sempre me quiseram bem, estava perdendo minha identidade por causa de Remorium. Foi quando resolvi tomar uma atitude. Mas Remorium é o tipo de substância com a qual não se pode ter meio termo: se você não o aceita e acata seus horários e doses então é melhor se afastar. E foi assim que Remorium rompeu comigo.

Foi difícil no começo porque Remorium esteve comigo durante nove meses, é um vício difícil de deixar pra trás. Por isso hoje estou aqui, buscando o apoio de gente como eu, que se dopa e precisa de ajuda. Gente que fez uso de Voleirium, ou Basqueterium, ou Nataçãorium e tantas outras substâncias estimulantes e anabolizantes. Remarium me deixou em 29 de abril deste ano, de lá pra cá ainda tentei utiliza-lo outras vezes, mas a substância foi implacável, então desisti. A última tentativa foi em 30 de junho, e só então eu pude ver os efeitos colaterais horríveis que o uso prolongado de Remorium poderia me trazer. Eu estava prestes a levar Remorium à Atenas, e hoje sei que meu destino seria sempre espera-lo à beira de uma lagoa. Por mais duro e triste que seja, por mais lembranças maravilhosas que Remorium ainda me traga, não posso mais. Fazem 17 dias que não uso Remorium, apesar de ter tido uma recaída hoje. O que posso dizer é que sem a ajuda de vocês eu não teria chegado onde cheguei, por isso o meu obrigada a vocês que sabem o quanto é difícl não ligar a TV no canal de esportes, o quanto é difícil não entrar no site da confederação, e o quanto é difícil manter-se limpa de drogas como essas. Vamos continuar vivendo um dia de cada vez, e só por hoje não vou pensar em me matar quando vir o símbolo das Olimpíadas!



 Escrito por Juju às 00h23 [ ] [ envie esta mensagem ]