Escrito por mim às 20h04
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Conversas em volta da lareira de Penedo
Falávamos sobre o tempo e nunca conseguíamos chegar à conclusão se gostávamos mais do calor ou do frio, da chuva ou da neve. Tínhamos certeza que o barulhinho da água batendo na vidraça era quase música, ao passo que as ondas arrebentando no Arpoador eram quase poesia.
Falávamos sobre música e entrávamos numa conversa infinita. Fazíamos listas intermináveis dos melhores cds, dos discos para os dias de tédio, das canções para os dias radiantes, e nunca decidíamos que música seríamos se isso fosse possível. Imaginávamos shows que nunca mais vão acontecer e queríamos nos matar por nunca termos visto o Renato cantando de perto.
Falávamos de filmes, e nos obrigávamos a ver aqueles que julgávamos ser imperdíveis, e ai de quem discordasse, era praticamente ameaçado de morte. No dia seguinte íamos à locadora na busca pelos títulos. E falávamos de livros também, e de como cada história do Nelson é foda, e de como a Martha nos entende, e de como cada linha dessas bem escritas e de como cada história dessas bem contadas nos faziam ler compulsivamente.
Falávamos de lugares mágicos, de países frios e distantes que nos esquentam a cada lembrança, e de viagens que fizemos juntas, de pousadas simples e apavorantes que nos fazem perder a hora de tanto rir, de praias que ficaram em fotos, de porres que ficaram no esquecimento, de pessoas que ficaram no gosto do beijo.
Falávamos do sexo oposto e não entendíamos o porquê de tanta confusão, de tanta mágoa transformada em rancor, de tanta mágoa transformada em saudade e de tanta mágoa ainda novinha. E botávamos banca de independentes, de bem resolvidas, de solteiras convictas, e nos rendíamos sempre a alguém que conseguia passar por cima disso tudo num piscar de olhos.
Falávamos das carreiras profissionais, e fazíamos os planos mais utópicos, numa tentativa de que nossos caminhos sempre se cruzassem, mesmo sabendo que agora não havia mais como escaparmos umas das outras. E entrávamos em pânico coletivo e disfarçado quando nos dávamos conta de que o tempo estava passando muito mais rápido do que gostaríamos. Talvez fosse o único ponto em comum.
Falávamos de família e descobríamos coisas das quais nunca desconfiaríamos, e ficávamos um tempo caladas, em silêncio, vendo a última lenha ser devorada bem devagar pelo fogo.
Falávamos das mais fúteis futilidades, da Gisele Bundchen e das últimas compras que fizemos.
Falávamos dos nossos planos para o futuro longínquo, para daqui a uns anos, para a semana que vem e para botarmos mais açúcar na próxima caipirinha.
Falávamos de amizade e acabávamos numa choradeira de bêbadas, num abraço confuso, em risos misturados às lágrimas, em brindes ao único pra sempre que assinamos de fato, o de sermos amigas.
Falávamos de amor e não conseguíamos ir muito adiante, porque faltavam palavras e sobrava a certeza de que ele já tinha acontecido pra nós, pelo menos uma vez. Ficava a desilusão do amor que acaba, e o amargo de quem não queria esse fim. Mas sabíamos que aquele outro amor, o nosso, estava ali, nos envolvendo por todos os lados, nos deixando plenas e absolutas. Com vontade de sorrir pra vida toda.
Nem sei o porque desse post melodramático com cara de epitáfio... saudade delas e de nós todas juntas. Vício.
Escrito por mim às 22h58
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Boletim médico
(só pra não perder o hábito, notícias do plantão)
Resultado da segunda ressonância, dessa vez da coluna cervical: pedículos íntegros, não sei o que neutros, retificação da lordose cervical (isso é um erro, mas nada grave), alguma coisa não significativa bla bla bla e desidratação parcial dos discos intervertebrais da C1 até a C6. My God! Pensei eu, porque foi assim que a minha L5 descobriu que tinha uma hérnia. Vocês não têm idéia de como eu respirei aliviada quando li: não há indícios de hérnia de disco na cervical. Escapei! Por via das dúvidas a partir de hoje vou mudar um pouco meu estilo de vida. Vou fazer as malas e me mandar pra Bahia, viver numa rede tomando água de côco, porque qualquer movimento pode ser perigoso. Acho que se eu ficar me mexendo muito vou mudar de espécie e fazer parte do reino dos invertebrados, porque não vai sobrar muito da minha coluna se esses laudos continuarem assim.
Escrito por mim às 21h42
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É melhor não resistir e se entregar
A minha noite de sexta prenunciava o fim de semana mais fracassado de todos os tempos... Migrações transferido para o teatro da UFF acabava com qualquer expectativa de que a mostra de dança fosse boa, quiçá acontecesse de fato. Pelo menos pra gente da TZH, que montou um "ballet" inspirado em e para o MAC, cenário que pode ser muso (ou musa) pra artista de toda espécie. É nesse momento que eu sento desolada no meu quarto e me entrego à tristeza. Mais um quase. Quando eu estava toda lambuzada de dança, dentro do clima do Envolva-te por nós, quando o meu medo de ter tido apenas uma semana de ensaio e de estar substituindo uma bailarina maravilhosa finalmente passou... vem ele e me tira o doce. Quem é o estraga prazer? Sei lá, quem quer que seja não ficou satisfeito por muito tempo porque a minha reza é mais forte e sábado o tempo abriu e tudo começou a acontecer! A mostra foi o remédio mais eficaz dos últimos tempos para curar males de dias difíceis. Dançar de frente pro mar e de frente pro Rio, com pessoas incríveis que me já me salvaram tantas vezes esses anos todos... é o melhor alimento pro meu corpo e pra minha vida. E é também a nítida sensação de que eu não devia ter me desviado tanto desse caminho. Eu sei que ainda tenho pernas pra percorre-lo, e sei que ainda tenho tempo, mas quando a gente vê de perto como é que anda a arte nessa cidade bate um desanimo daqueles realistas demais pra deixar a empolgação correr pelas veias. Que pena que a sensibilidade das pessoas anda tão em baixa por aqui.
E só isso já teria feito do meu fim de semana bastante refrescante, mas tem mais. Depois da bomba de sexta e da vontade eterna de ficar em casa olhando pro teto eu fui cumprir minha promessa...Show com a Clarinha num esquema vip pra ninguém botar defeito, praticamente sentamos no colo da Fernanda Abreu de tão perto. E ainda entramos no 00 por causa dela, que a essa altura já era Nanda de tão íntima depois da conversinha no camarim! Domingo foi o dia da Michelle estreando a casa nova num condomínio desses gostosos cheios de micos espalhados pelas árvores. É, ela mora no meio do mato, ela acorda com os passarinhos cantando e ela está radiante por ter conseguido realizar o sonho da vida dela. Pessoas incríveis merecem essas realizações. A gente fica com a parte boa de vê-la sorrindo sempre e de comer o bolo de chocolate mais irresistível da vida. Farinha pra ela, pra não faltar o pão, arroz pra não faltar felicidade e açúcar pra ter sempre afeto.
E as surpresas continuam sendo surpresas, e eu continuo sem saber o que fazer...
Escrito por mim às 11h31
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