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Os ombros amigos

Consolos são que nem conselhos: se fosse bom, a gente vendia. Você está lá com a sua dor, daquelas brabas, decepcionado porque seu projeto não saiu ou arrasado por qualquer outro motivo que te machuque a ponto de você achar que não vale mais à pena viver. É então que entra em cena aquele time de coadjuvantes, os que querem te consolar quando suas lágrimas estão prestes a cair.

Eles se dividem em várias categorias e obedecem a uma certa hierarquia que vai do verdadeiro amigo àquele que quer se livrar de você, passando pelos que vem em garrafas ou latas com a indicação de seu teor alcoólico. Esses geralmente te fazem esquecer tudo, ainda  que momentaneamente, e te dão uma ressaca que estende sua dor do aspecto psicológico ao nível físico. Esses podem vir acompanhados ou não de ligações para seu step, e se você acordar ao lado deste é porque o consolo ganhou vida. E é aí que entram os sábios, que sabem que não vale a pena argumentar com você sobre a noite anterior e que qualquer coisa que eles disserem pra você nesse momento não vai ser transformado em informação útil pelos seus neurônios. Eles estão ali apenas pra te dar o ombro e os ouvidos, pra ouvir aquela ladainha pela enésima vez. São seus amigos mais verdadeiros, sem dúvida. Uns esperam os primeiros dias passarem e aparecem na sua porta com flores e bombons. São eles que te contam histórias supostamente engraçadas, que contam como esta a faculdade e que tomam cuidado para não parecerem felizes demais na sua frente. São amigos também e sabem que você precisa chorar um pouco, mas são do tipo que entram em pânico quando isso acontece então pra não terem que presenciar esse momento levam um DVD a tira colo. Outros te ligam com um punhado de frases feitas e sinceras, são os que não sabem o que fazer diante da situação, e são geralmente pessoas pouco íntimas mas que gostam de você o suficiente pra querer te alegrar um pouquinho. Há ainda os que tentam te fazer enxergar o lado bom da situação, e que te irritam profundamente e te fazem ter certeza que Polyana se personificou e resolveu baixar bem no meio da sua catástrofe.

E finalmente tem aquela raça que encontra um jeito muito bola de cristal pra situação. São eles que vem com o inevitável “Não era pra ser”. Por acaso são videntes? Eles não vão te ouvir, não vão te confortar e não vão te entender porque são seres evoluídos que se apropriam do seu destino como poucos e falam que “não era pra ser” com uma veracidade que quase te convencem. “Não era pra ser” se encaixa em praticamente tudo: no emprego que não vingou, no namoro que terminou, na viagem que não saiu, no prêmio que você não ganhou, no cara que não te ligou, no cinema que tava cheio, no sapato que não coube, na manteiga que acabou na hora que você ia passa-la no pão. E lá vem eles dizendo a célebre frase, e logo arranjam mil justificativas cabíveis: a produtora na qual você tanto queria trabalhar? Não pagam bem. O cara inteligente e lindo por quem você se apaixonou? Não tinha tempo pra você. A viagem de um mês à Europa? O avião podia cair ou ser seqüestrado por terroristas. E manteiga engorda. Um monte de baboseiras que só servem pra essa pessoa entrar na sua top 5 list de pessoas que você gostaria de torturar.

Essa gente é insensível, simplista e esotérica demais. Tentam te convencer que tudo aquilo pelo qual você lutou tanto simplesmente não era pra acontecer porque o roteirista da sua história acha melhor assim.  O problema é que “não era pra ser” passa por cima de todos os planos que você tinha, e faz isso rápido demais. Te deixa sem saber o que fazer com todo o seu talento profissional e aquela paixão gritando dentro do seu corpo. Te deixa no Brasil por muito tempo e com fome de manhã. Tá certo que com o passar do tempo e o amadurecimento a gente percebe que certas coisas não tinham como dar certo, ou pelo menos não da maneira que a gente esperava. Em parte porque muitas delas não dependem só da gente. E também porque nem tudo precisa ter o final que a gente desenhou pra ser válido.  Passado o tempo você vê que algumas dessas coisas eram realmente uma roubada e ironicamente começa a agradecer por terem dado errado. São as peças que a vida nos prega,  mais que bem-vindas, mas até você perceber isso demora.... Enquanto a vida não nos prova, não tem amigo ou avó que nos convença.

Não era pra ser” é muito fácil pra quem ta de fora, pra quem não ta sentindo a aspereza na pele. E pra quem acredita muito em destino. Não sei se é um consolo barato e conformista demais, e talvez até seja. Mas o fato é que com o devido passar dos meses o “não era pra ser” acaba virando o único argumento praquelas feridas enormes que não conseguem achar qualquer explicação lógica. Melhor se agarrar nele e continuar na luta. Eu já passei por vários desses “não era pra ser”, sobrevivi a todos e me convenci de raríssimos. No fundo eu continuo achando que alguns deles simplesmente não eram pra ser. E é exatamente nesses que continuo insistindo. Burrice ou não, ainda acho que vale a pena, até que eu mesma me prove o contrário.



 Escrito por mim às 15h57 [ ] [ envie esta mensagem ]



Você passou do ponto e agora eu já não sei mais...

Estava prestes a escrever um texto auto- enganativo (e eu sei que essa palavra não existe). Tá bem, eu me rendo.

Meu domingo foi lindo, feijoada na casa da Lu pra comemorar seus 23 anos com amigas que me fazem rir de doer a barriga. Brigadeiro com coca-cola, conversas, besteiras, Lu e seu novo amor iluminando o ambiente... Isso é o tipo de coisa que me contagia e que me faz ficar toda boba.

Informal com Rafa e Rita, que são duas surtadas, Rafa com seus mil casos amorosos, Rita com seu jeito rock and roll de ser, chope delicioso, pastéis idem, música como tema de quase tudo, porque a gente encaixa esse item dentro de qualquer assunto e volta pra casa cantando Los Hermanos aos berros.

Tudo muito bom, muitas gargalhadas, muita felicidade.

A parte auto- enganativa era a frase célebre “tem coisa melhor que isso?”. Discurso típico de quem ta solteira e lisa.  É claro que tem e todos nós sabemos disso. Será que eu to ficando amarga e desiludida? Será que ainda tem esperança pra mim?

 

:: a música mais linda dos tempos "e se o tempo for te levar eu sigo essa hora eu pego carona pra te acompanhar". Rodrigo Amarante, Los Hermanos.

 



 Escrito por mim às 16h55 [ ] [ envie esta mensagem ]