“... quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente.”, disse Vincent a seu irmão, Theo van Gogh, na carta de número 221. Um dos livros que devorei esse ano, cheio de depoimentos transtornados e de uma beleza incrível, colorida, doce e perturbadora por vezes. E resolução número 1 para qualquer ano que venha: viver com paixão. A seguir, cenas dos próximos capítulos e, principalmente, o que NÃO fazer em 2005.
Trabalhar. E de verdade, com chefe, tarefas, salário, horários que poucas vezes serão cumpridos. Nada de freelas bobocas ou de ilusões à toa. Trabalhar com o que me motiva, com o que me bota pra pensar, com o que me dá medo e me desafia.
Terminar a faculdade. Em junho ou novembro, tanto faz. Com louvor, com 10, com 7, com sorte, do jeito que for, adeus UniverCidade, adeus Help Desk (ou Atrapalha Desk), adeus Horcades e toda aquela corja de gente frustrada. A parte da saudade vai ser ótima, uma porção de gente e de lembranças gostosas que vão fazer parte de mais um capítulo da minha vida. E se os amigos forem amigos então não tem distância que separe.
Não ter medo dos dois itens acima.
Não sentir mais dor nas costas, porque o pilates está aí pra salvar músculos, vértebras e o que mais tiver de torto dentro de mim. E portanto não tomar mais relaxante muscular, nunca mais. E não gastar mais nenhum centavo com salompas, essa merda de adesivo cujo efeito psicológico não funciona mais pra mim.
Conseguir um laptop. Porque eu tenho fé. E conseguir um Quark, porque eu tenho tanta fé que sou quase devota.
Conseguir um carro antes de ficar a pé no meio de uma rua qualquer.
Lembrar sempre onde estacionei o carro pra não ficar nervosa ligando pras amigas enquanto ando em círculos em Ipanema desesperada atrás dele.
Me despedir de uma vez por todas do fantasma e de qualquer resquício que tenha ficado de saudade. E sentir saudade das pessoas que valem esse sentimento.
Não me apaixonar por pessoas que não vão se apaixonar por mim, e conseqüentemente não sofrer mais por causa da espécie masculina.
Não exagerar tanto no protetor solar e não passar tanto tempo debaixo da barraca quando for à praia. E aprender de uma vez por todas que o biscoito verde é sal e o laranja é doce.
Não dormir tanto, e por isso passar mais tempo em lugares como praia, casa de amigos, lugares que sirvam chopp e bolinha de queijo, ou chopp e pizza, ou chopp e pastéis ou chopp com qualquer outra coisa. E também passar o tempo fazendo coisas como ler um livro, ver um filme. E outras. E rindo.
Não reclamar tanto, não ser tão preguiçosa, não usar a frase “não tenho tempo” como desculpa. Resolução número zero. Não cair no comodismo de escapar das coisas com essa desculpa esfarrapadíssima e manjada. Eu sempre tenho tempo pra ouvir um Cd que eu amo, pra ler um escritor de quem sou fã, pra ir à Fnac descobrir novas músicas, pra dançar, pra ligar pra um amigo. Eu sempre arranjo tempo pras coisas que eu adoro, o que invalida qualquer 'não' traduzido em falta de tempo. O 'não' pode doer mais, porém é valente e sincero, o que lhe confere ar de extrema delicadeza se pararmos pra pensar. É muito mais legal ser assim. E é por isso que a frase de Vincent abre esse post, porque quero sentir tudo com mais gentileza, quero ver mais cores, valorizar mais o que merece, desprezar mais o que precisa ser esquecido, mastigar com calma os prazeres que essa nova etapa da vida tem pra me oferecer.
Feliz 2005 para todos nós!
* Vinícius de Morais