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8 dias depois...
Dia 1: ela acorda cedo, toma café, toma banho, escolhe a roupa e vai para o primeiro dia de trabalho. Pega o ônibus que a deixa na porta, sobe o velho elevador do número 121 da Siqueira Campos e por trás da porta 804 está a razão de toda a sua ansiedade. A chefe chega meia hora depois enquanto ela espera sentada na cadeira rosa e bastante desconfortável, porém não há nada que abale seu entusiasmo. Combinam salário, horário e começa a maratona. Muitos tecidos, fitas de cetim, rendas e um tanto de outras coisas que ela não sabe nem o nome. Uma pausa pro almoço, uma ida à tinturaria instalada no fogão da cozinha da casa da chefe, um carinho e muitas lambidas do Zeca, o cão da chefe tão quieto que até hoje não foi percebido pela vizinhança do prédio, que não admite animais. Roupas tingidas, flores bordadas, até amanhã.
Dia 2: gincana. Quem fizer uma roupa mais rápido ganha um prêmio. Quem fotografar as mais de 80 peças prontas para o showroom do dia seguinte ganha outro prêmio. Quem conseguir organizar as fotos com nomes e preços das peças, quem conseguir etiqueta-las, quem conseguir cabide para tudo isso, quem conseguir convencer o porteiro a esperar só mais um pouquinho, afinal já são 11 da noite e ele devia ter ido às 10, quem conseguir colocar as mais de 80 peças na mala ganha a liberdade.
Dia 3: dormir, dormir, dormir... e Gabriel Garcia Márquez.
Dia 4: DVD e ar condicionado, dormir e esquecer a vida numa pista de dança. Migração pendular para o Catete, direto no túnel das coisas maravilhosas do tempo, festa Ploc 80’s com todas as músicas bregas que ela mais ama e outras tantas que ela já nem lembrava mais...
Dia 5: dormir, DVD, compras no Rio Sul com a única pessoa no mundo que a faz ir até o Rio Sul e tacos com Frozen de brinde para terminar a noite na companhia de uma amiga que ela adoraria ver mais.
Dia 6: praia, a recompensa democrática de nós mortais fadados ao domingo. Praia e cinema, um filme podre, uma amiga bárbara e muita alegria dentro dela.
Dia 7: trabalho. O que? Acho que não... A chefe em São Paulo, a assistente no Rio, nada pra fazer e a FM o dia bombando nas rádios do Rio. Alcione, Pique Novo, Travessos. E, como já dizia Murphy, tudo pode piorar... Felipe Dylon, Rouge e algum ouvinte que ainda não se cansou de ouvir a Ivete cantando “Poeiraaaaaaa”...
Dia 8: Murphy de novo. Ela vai ao ortopedista tentando que ele a conserte, a remende, faça qualquer coisa que a devolva os movimentos naturais e indolores do pescoço que há tanto ela já não consegue... O médico, de férias por aí, deixa o Dr Carlos em seu lugar. O Dr Carlos tem um sotaque latino e ela começa a achar sua procedência natal duvidosa. Mas se o Dr Carlos é quem vai tira-la da crise espetando-lhe agulhas cheias de remédios no pescoço e costas então não interessa. Ela sai do consultório com uma terrível dor que acha ser conseqüência das agulhadas. Às 8 horas da noite ela começa a achar a procedência médica do Dr Carlos duvidosa, está péssima, pior do que sempre com uma dor que não a deixa raciocinar. E nesse meio tempo advinhem? Pagode, axé e musa do verão nas rádios. Antes de chegar em casa ela tenta ingressos para a Cia de dança mais disputada do cenário carioca. A fila é gigante e imóvel, a paciência é pequena e limitada, ela recorre ao amigo bailarino que lhe promete conseguir os ingressos que valem quase ouro. Ela resiste à tentação de estragar seus pilmões e sai da banca sem o maço de cigarros, resiste ao cornetto na padaria porque não quer enfrentar outra fila e lembra-se de Oscar Wilde quando avista o carrinho de pipoca. Devora a tentação enquanto espera o ônibus na fila. Trânsito. Stan Getz e João Gilberto no CD player que dá sinais de problemas. Lar. Cão. Geladeira quebrada. Plantas pra molhar. Concentrado de camomila e passiflora, ar condicionado e cama. Amanhã ela vai matar o Dr Carlos. Bom? Ruim? Não sei, só sei que foi assim...
Escrito por mim às 19h58
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