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"Still a little bit of your taste in my mouth" *
Tudo vai fazendo parte de mim. Toda e qualquer pessoa que me dá mais que um bom dia, e até mesmo as que só me dão bom dia, toda essa gente é alvo da minha curiosidade, nem que seja por alguns segundos. Por mais que eu esqueça seus rostos ao dobrar a esquina. Por mais que não saiba seus nomes. Por maior implicância que eu possa ter com elas. Do motorista do ônibus ao cara que acabou de me fechar no trânsito passando pelo coordenador da faculdade que me recebe com o seu bom humor inabalável e invejável. Do médico que me espeta agulhas e me distrai com uma conversa sobre cinema à sua secretária que tenta desesperadamente me encaixar num horário. Daquele amigo que eu encontro a caminho do médico, passeando com o cachorro na praia às sete da manhã àquela outra que a bem pouco tempo era tão próxima dos meus pensamentos mais íntimos. Da costureira que resmunga qualquer coisa quando eu pergunto pelas rendas ao cortador, que me ensina que passando a mão sobre os dois lados de um guipir eu consigo descobrir qual é o avesso. Da pessoa que me mostrou o que é um guipir àquela que acreditou que eu pudesse ser útil dentro da sua empresa. Tudo vai mudando dentro de mim, como numa reciclagem. Já sei separar o lixo e consigo reaproveitar lembranças que só me fazem deixar pra trás o que deve ser deixado. Os tecidos, as rendas, as fitas de cetim. As pessoas simples, os erros de um português que não teve escola, a fila debaixo de sol pro ônibus cheio, a satisfação de ainda ter lugar sentado. Tudo vai me fazendo valorizar os hábitos que eu já não tenho mais. As refeições à mesa com duas ou três pessoas, o sono, as páginas infinitas de Gabriel Garcia Márquez, os cds tocando no som do meu quarto, o suor escorrendo pelo chão de linóleo da academia. O desequilíbrio que eu senti quando subi as escadas da sua casa na primeira vez em que eu quis pertencer ao dono do mistério mais perturbador que eu já conheci. Tudo vai fazendo parte de mim, tudo vai mudando, e por mais que eu preste atenção em outros olhos e em outros sorrisos tem sempre a sua cor enterrada nas minhas entranhas.
* Damien Rice em Cannonball
Escrito por mim às 01h30
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