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São as águas de março

Três indiazinhas resolveram sair de sua tribo para ir ao show no distante bairro da Lapa. Ao chegarem, saltaram do carro com guarda-chuva em punho e, com muita dificuldade, conseguiram chegar à calçada. Além de aromatizada, a Lapa precisava ter seu calçamento reconstruído e seus bueiros desentupidos. Enquanto as penas do cocar murchavam debaixo do temporal, elas calculavam quantos metros teriam de andar até o outro lado da rua e qual era o tamanho do obstáculo. A arca de Noé passava logo ali perto, mas, confiantes de que valeria a pena enfrentar o dilúvio para ver os rapazes no palco, tomaram coragem e seguiram em frente. Bem perto delas atravessava um integrante de outra aldeia, com a água pela canela. Céus... O pequeno rio que se formava na frente das três indiazinhas ficava cada vez mais cheio, mais marrom, mais mal cheiroso, mais cheio de mini correntezas que arrastavam todo tipo de sujeira e detritos que podem ser encontrados nas ruas da Lapa. Elas deram as mãos e inspiradas por Mary Poppins saltaram por cima do quase Amazonas e chegaram à outra margem, acompanhadas de Nemo e seus semelhantes, que a essas alturas nadavam dentro de seus sapatos. Uma vez dentro do Circo Voador estariam salvas. Era o que pensavam as indiazinhas, a pintura escorrendo pelas pernas e braços encharcados. Improvisaram uma dança da chuva ao contrário, mas Tupã havia embarcado na arca com os animais e estava pouco preocupado com o restante dos mortais. Encararam horas sob chuva enquanto bandas abriam o festival. Esgotaram todo e qualquer assunto que pudessem ter em comum. Cansadas, sentaram-se ao abrigo de um pedaço de telhado e esperaram pacientemente. Até que a multidão se levantou, começou a gritar ensandecida. Os rapazes pisaram no palco, e aos primeiros acordes de “Tá bom” elas esqueceram que chovia. Na terceira ou quarta música Camelo cantou “Santa Chuva”, que começou a cair fininha. E os Hermanos foram desfiando seus sucessos, lavando a alma do público que cantava seus hinos. Em alguns momentos não se ouvia os vocalistas, mas centenas de fãs enlouquecidos reproduzindo seus versos com suas vozes ainda mais desafinadas pela emoção de estarem assistindo seus ídolos, pela quinta vez no meu caso. Um dia espero perder as contas. Naquele momento, o mundo podia parar.

 

 

 



 Escrito por mim às 15h05 [ ] [ envie esta mensagem ]



Esse papo seu tá qualquer coisa...

Como começar? Se isso fosse um fotolog certamente com “O Grito”, de Munch. Se fosse uma música, “Vamos Fugir”. Como não é nada disso, sigamos em frente.

 

No primeiro dia ela chega com um certo ar cruel de quem sabe o que quer. Luz de fim de tarde, ele tem um bom papo, sabe até dançar. Tem tudo programado pra impressiona-la. Não posso compreender. Será que errei na mão? As coisas são infinitamente mais fáceis na televisão.

Eles vivem em épocas completamente distintas. Ele parou no começo do século, ficou esquecido dentro de uma velha vitrola e usa sobrecasaca de veludo enquanto aguarda ansiosamente para ver a calçoleta da menina. A menina, por sua vez, vive algumas décadas à frente e só vê vitrolas quando passeia por brechós e antiquários. O moço não passou pela era do plástico. E a menina fica extremamente cansada por ter de lhe explicar tantas coisas, dentre as quais calçoleta ter mudado de nome e formato. Baby, se você não vier pro século atual, então nada feito. Aliás... mesmo que você venha....Fique no seu pé de laranja e deixe a menina por aí porque ela não vai mais deitar na sua cama de dossel.

 

O dia seguinte ela passa metade dormindo e metade lendo. Dispensa as festas e as obrigações e se entrega ao que de fato lhe dá prazer.

 

O outro dia ela passa se questionando quem de fato é marciano, ela ou eles. Sua teoria inicial era de que o mundo estava sendo invadido aos poucos pelos E.Ts, e achava esquisito que tantos tivessem ido parar justamente em sua vida. Ao longo dos dias ela começou a achar o contrário, que talvez ela tenha caído aqui sem querer e que as pessoas semi esquizofrênicas que ela conheceu é que sejam sãs.

 

No quarto dia ela rende-se à música.

 

No quinto dia fica feliz por poder ser inteligente e boba,moderna e tão careta, culta e brega e por carregar essas convicções dentro de si como a melhor resolução que tomou na vida.

 

No sexto dia volta pra casa e devora um prato de comida. Senta pra descansar e desiste de entender qualquer coisa.

 

:: Show da Vanessa da Mata segunda em companhia da chefe. Boa surpresa.

 

 

 

 



 Escrito por mim às 22h50 [ ] [ envie esta mensagem ]