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Chuva e miopia no Rio de Janeiro
Se você é míope e precisa pegar um ônibus na cidade do Rio em dia de chuva, sentirá o mau humor que eu provei esta manhã.
Tudo começou quando eu tinha 14 ou 15 anos. Um dia eu tinha 14 ou 15 anos e fiquei míope. Foi tão de repente que custei a perceber. Foi como um piscar de olhos, sendo que ao abrir deles eu tinha acumulados 2 graus e pouco de miopia. E uns quebradinhos de astigmatismo. Miopia é a deficiência de quem não enxerga de longe, e astigmatismo eu nunca consegui entender. Basta dizer que um dia eu tinha 14 ou 15 anos e passei a ver tudo embaçado.
Um dia eu tinha 16 ou 17 anos e resolvi usar lentes de contato gelatinosas descartáveis. O problema era que a lente gelatinosa descartável não corrigia ao astigmatismo. Eu não dei importância, o legal é que as lentes aumentaram meu campo de visão, o mundo deixou de caber apenas dentro das hastes retangulares dos óculos e eu passei a ver tudo direitinho, como era antes dos meus 14 ou 15 anos.
Passados uns anos, inicia-se o tempo em que o astigmatismo começa a pesar... Os quebrados, parece, interferem no todo e as placas de trânsito, por exemplo, tornam-se ilegíveis, assim como uma série de outras coisas torna-se invisível.
Passados uns meses, o carro apresenta defeitos seriíssimos e vai para o conserto. Passados dois dias, chove. Chove muito. Parece que nunca mais vai parar de ventar e chover. As ruas parecem selvas, com galhos caídos, para se ter uma idéia do estrago que sofre a província carioca cada vez que a água cai. Passados uns minutos, finalmente, me encontro nesta situação patética e mau-humorante. Um guarda-chuva com poderes de proteção fictícios, na orla, espremendo os olhos para tentar enxergar qual ônibus me levaria ao meu tão longínquo destino. Quando consigo ler o itinerário, fixado em letras garrafais tamanho 2548 na frente do ônibus... tarde demais! Ele já foi embora. E deixou-me de lembrança um pouco da água que formava a agora extinta poça. Passados quarenta minutos e alguns ônibus que fizeram a mesma gentileza de me molhar mais um pouco, volto pra casa. Amaldiçôo o defeito do meu carro e , principalmente, o idiota que inventou lentes de contato gelatinosas descartáveis que não corrigem astigmatismo.
Troco de roupa. Sinto-me seca e segura para encarar mais quarenta minutos em outro ponto de ônibus que, espero, seja mais movimentado. Venta. Chove. Passa um ônibus. Dois. Três. Uma Kombi. E então se aproxima outro. “Pra onde ele vai?” penso eu. “Ai caramba, pra onde será que ele está indo?!”. Consigo juntar algo que parece um G com um V talvez, e por adivinhação faço sinal para o veículo que, tomara, me levará até a Gávea. Pergunto para o motorista se o ônibus vai mesmo para a Gávea, e ainda insisto se ele tem certeza. Sim, ele tem certeza. Sento, abro meu livro e descubro que também não estou enxergando muito bem de perto.
Passada uma hora estou em Copacabana, sentada no escritório do atelier, com um casaco seco e um almoço quente. Por via das dúvidas, sábado vou ao oftalmologista. E como escreveu alguém: água é muito legal quando se tem pleno controle sobre ela.
Escrito por mim às 22h38
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