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Entre pimentas e dentes de alho

Levou a sério a brincadeira do Santo, e passando pelos brechós do shopping velho comprou um escapulário de Santo Expedito. Na manhã seguinte tomou café na padaria, hábito que queria adotar pra vida toda, e conclui que era uma ótima maneira de começar o dia. Horas depois estava recebendo no trabalho o carro reserva que o seguro lhe prometera. Começou a crer na eficácia do Santo. Apertou a medalhinha forte quando avistou o automóvel vermelho. Apertou a medalhinha mais forte ainda quando entrou na tal máquina, completamente desprovida de ar-condicionado.

 

O moço ia explicando que o carro tinha os quatro pneus, o step, os documentos e era basicamente isso. Muito basicamente. Extremamente basicamente. Mais basicamente que isso era impossível. Ficou contente em saber que o carro, vejam só, estava equipado com quatro pneus. Começou a duvidar da força de sua fé quando tentou (notem bem: tentou) girar o volante para a direita. Nunca na vida vira um volante tão imóvel. Respirou fundo, abriu os vidros e acionou todos os músculos do corpo para conseguir levar o carro para a garagem. Num esforço que a fez suar em bicas, conseguiu subir a ladeira e botar o carro na vaga. Quis chorar. Teve um esgar de choro, na verdade. Não bastasse as pessoas morrendo, o carro batido, a rotina estafante, o sono perturbado e o coração se desfazendo em retalhos, teria agora que fazer musculação pesada se quisesse dirigir a máquina que lhe foi cedida.

 

Voltou ao trabalho, desolada. A única coisa que a consolava era o fato de já ter uma consulta marcada no ortopedista para o final da semana, quando então poderia curar eventuais lesões nos ombros, provenientes de sua nova direção nem um pouco hidráulica. Engoliu o choro, tinha um meio de transporte afinal, além de outras tantas imensas fortunas. Horas depois estava na oficina recebendo seu carro de verdade, desfeito de quaisquer arranhões ou estragos conseqüentes da batida. Quis chorar de novo. De satisfação dessa vez. Alguma coisa dera certo. Apertou a medalhinha de são Expedito. Sentiu que o otimismo voltava a integrar a lista de sentimentos sentidos por ela. Só não virou devota do Santo porque a médica atrasou a consulta. Ficou cansada de esperar, e mais cansada ainda da conspiração que fizeram contra ela, foi pra casa xingando uma dezena de pessoas e todas as suas futuras gerações. No entanto seu otimismo não fora quebrado de vez. Deu mais uma chance ao Santo, e apertando a medalhinha teve certeza de que muito em breve estaria na sala de Moreno Veloso tomando uma garrafa de vinho em sua companhia. Ele não ligou. Voltou pra casa, tomou sua dose de Prozac e foi dormir antes que algo mais acontecesse...

 

 



 Escrito por Julieta às 21h53 [ ] [ envie esta mensagem ]



Sobre muitos assuntos

Das dores mais doídas, daquelas que machucam o peito e deixam um vazio irracional, a pior é a de não ter conhecido alguém tão próximo. Não saber os gostos, os hábitos, os defeitos, as qualidades, enfim... não ter convivido com alguém que talvez precisasse tanto disso. Fica uma estranheza de estar chorando por alguém que não se sabe, e que talvez precisasse tanto ser sabido. Fica um esvaziamento besta. Uma interrogação eterna diante do fato de que essa pessoa não vai voltar pra resolver a questão de quem foi que fechou as portas. Talvez ele tenha aberto e a gente, por motivos estúpidos, injustos e sobretudo humanos, tenha fechado com um empurrão agressivo. Ou ele tenha se trancado enquanto a gente esmurrava a porta. Inútil tentar buscar.

 

Dos cansaços mais rotineiros, aqueles que te fazem querer chutar o balde aproximadamente todas as horas do dia, o mais exaustivo é a falta de ordem de terceiros que te invade e te consome. Não se vive bem em meio ao caos alheio (o nosso é sempre aceitável), e isso vai minando qualquer capacidade de raciocínio criativo, vai desgastando e desanimando numa proporção que cresce  a galopes.

 

Das pessoas, tem aquelas imaginárias que existem o tempo todo dentro dessa minha cabeça fantasiosa. E tem aquelas reais, muito mais freqüentes. Cabe a mim viver mais tempo nesse planeta que em outros e parar de confundir essas duas classes de gente.

 

Das palavras, preciso que tenham um significado verdadeiro, que não sejam ditas da boca pra fora e que não se percam numa lata de cerveja pra ir embora no primeiro trem que passar. Se quer dizer alguma coisa no ouvido, diga. Mas lembre-se de que tem alguém escutando do outro lado, e talvez essa pessoa esteja acreditando no mel que vai escorrendo sem parar. Mas se num intervalo de uma noite a escuridão apagar tudo, então tchau, seja feliz e cresça. E principalmente não volte atrás, porque alguém tem que fazer essa parte, e eu infelizmente não tenho forças.

 

Dos gestos, preciso de mais abraços apertados e sinceros dos meus amigos (por favor!).

 

De risos que salvam o dia, preciso de mais Marcos espalhados pelo mundo. Foi ele que deu uma fugida do trabalho pra me levar sexta-feira à bilheteria do Canecão, e foi ele que me obrigou a acender uma vela para Santo Antonio. E na falta da imagem de um, São Longuinho quebrou um galho. O Marcos disse que ele também serve, afinal de contas acha coisas perdidas. Por via das dúvidas, acendi a tal vela, mesmo com uma leve impressão de que eu estava precisando mesmo era acender uma vela para Santo Expedito, o das causas impossíveis...

 

Dos dias que passam cada vez mais velozes, eles têm chegado sem paixão.

Das flores, elas sumiram. E do amor eu já esqueci...



 Escrito por Julieta às 22h53 [ ] [ envie esta mensagem ]



Olhos

A narrativa corre mais ou menos assim: ela gastou mais uma manhã de sábado para exames oftalmológicos. Eram três ao todo, e um deles na parte infantil da clínica. Sentiu-se um pouco  mais criança, embora sua coluna seja a de uma pessoa de 60 anos. Perdeu as contas da idade e deixou a médica conduzir as coisas. Olhou pra luzinha verde, acompanhou a caneta em forma de bichinho, contou quantas bolinhas coloridas tinham e quais eram as cores ao melhor estilo “teste de daltonismo”. Acertou as cores, ufa, menos um problema. A doutora, seca e fria, disse que o problema era a convergência insuficiente, e que para isso seriam necessárias 10 sessões de exercícios na clínica para então passarem aos exercícios em casa. Saiu da clínica. Pensou que sua avó, de 82 anos e provavelmente a pessoa mais saudável da família, nunca na vida tinha feito um teste ortóptico. Pensou também que sua avó tem hérnia de disco e nunca na vida fez fisio ou RPG. Pensou também que na época de sua avó essas coisas nem deviam existir, e que metade das pessoas do mundo devem ter a capacidade ocular de convergência defeituosa e nem por isso perdem seu tempo fazendo exercícios de olho. Pensou também que os problemas passam existir quando você se dá conta deles, e que os médicos são, na verdade, pessoas que vieram ao mundo para fazer os outros se darem conta dessas questões. Ficou p da vida. Não marcou exercício nenhum, entrou no carro com seu olho torto, foi pra casa e não teve conflitos com o objeto de sua tortidão desde então. Até agora...

 

:: Cd novo do Coldplay devia vir com show embutido.



 Escrito por Julieta às 13h35 [ ] [ envie esta mensagem ]