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Dois
Olhou pra menina e cumprimentou-a displicentemente. Não sabia exatamente de onde se conheciam, mas desconfiava que o contato fora salivar. Ela sabia bem. Ele sumiu no meio da gente animada da festa. Ela tratou de se acabar na pista. Ele não. Ela ficou com sede. Ele estava no bar. Ela pediu uma cerveja. Ele pediu seu telefone. Ela foi embora descrente. Ele ligou. Foram tomar um café. Ele, um homem. Ela, uma menina. Ele, um clown. Poeta, escritor, músico, bailarino, ator, professor, doutor, transgressor, exagerado. Ele morou em todos os bairros, passeou por todos os mundos, amou mulheres, chegou no limite, ficou nu em cena. Ela nasceu, foi pra escola quando teve idade suficiente, foi pra faculdade quando acharam que ela tinha idade suficiente e agora conta a história. Ele clown. Ela tédio.
“Na última vez, tinha desistido de tentar. Sem êxito. Não hesitou. Mandíbulas rígidas, contrariadas. Melancolia tímida dos que esperam. Só, desistiu. Só, caminhou livre. O céu cobrindo suas feridas. O chão esquentando seus pés. O tamanho da crosta terrestre. Números. O mar é feito de muitas gotas. Olhares perdidos. Os muros construídos por pessoas, habitados por imagens: sala de espelhos, parque de diversão, desfile de 7 de setembro: brincadeira de cabra-cego-de-olho-aberto. Foi ao lugar do encontro. Não havia combinado nada. Estava lá, sabia. Talvez não. Contou sobre as tardes de outono. Pobre outono... nunca é lembrado. Tardes translúcidas. E luz branca, calma. Sabe, o circo é um lugar estranho, as pessoas vivem sorrindo. Pensou na frieza do ar em suas narinas. Decidiu ficar assim por muito tempo. Como dois olhos brilhavam tanto, tanto mais quanto se bebia. O ar fica doce. A boca vermelha brilha. Brilha. Os desinteresses fazem fila no banheiro. Hora de seguir os letreiros. Te ver outra vez. Também. Gosto de te ver, também. O cheiro muda as cores mudam as coisas mudam o chão que muda o céu. Olhou a lua grande. Os muros acenavam mudos. A rua continuava aberta. A noite é um circo. Esqueceu o nome da cidade. Seguiu. A superfície terrestre é muito grande.”
(Ericson Pires)
Sentaram na livraria. Tirou do bolso uma rosa, beijou-a e insiste em deixa-la sem graça.
Escrito por Julieta às 20h37
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