| |
Náuseas
(ou sobre perder coisas)
Capítulo 1.
A última vez que o carro teve problemas foi semana passada. Eu estava voltando do pilates e achei que ia morrer de calor. A última vez que eu achei que ia morrer de calor foi quando trabalhava no Saara. Me livrei do Saara e o ar-condicionado do carro quebrou. Murphy à parte, tenho certeza que isso tudo é culpa da dona Laura. Dona Laura é aquela costureira que me odeia, e o ódio tem proporções que a gente não consegue imaginar. Por via das dúvidas, já amaldiçoei a dona Laura. Mas eu ia dizendo que quase morri de calor dentro do carro. Sim. Acontece que o ar-condicionado do automóvel tem vida própria: gela e esquenta quando quer. Assim mesmo: uma vez você liga e morre de frio. Uma hora depois você liga e arregaça a perna das calças, as mangas da blusa, tira o sapato, abre o vidro e reza. É claro que na concessionária autorizada o ar funciona perfeitamente bem. Pra você ver: está lá o moço da Peugeot tomando seu sorvete, dentro do carro cujo ar está supostamente enlouquecido. E o moço lá, curtindo um fresquinho. A pessoa, totalmente desmoralizada em seu figurino semi-transparente depois de alguns minutos na sauna, vai embora descrente e com a cabeça feita: vai vender o carro-barco-yellowsubmarine-sauna. Fala sério, todo mundo quer um carro multifuncional. Vai ser moleza.
Capítulo 2.
Clown (aquele que tirava a rosa do bolso e te chamava de borboleta). Sua casa tem uma parede amarela, outra azul, pufes laranjas e uma vitrola. A vitrola toca Gal. Mas não uma Gal qualquer, aquela Gal de 72. O cara começa a contar histórias. Fala do Waly, da briga, de não ter feito as pazes com o cara a tempo. Fala de seu cd, diz que foi distribuindo por aí e acabou ficando sem nenhum e concorda que é um absurdo não ter seu próprio cd. Mas mostra seu livro de poesia com orgulho. Deixa a menina de olhos de borboleta na sala enquanto se arruma (figurinescamente) para a festa. Descem no elevador, ele fala de como a menina é delicada. Diz que vai colocar seu nome na lista da festa. De fato põe. Ele sobe no palco, canta, grita, fala, toca, enlouquece. E a menina ali, bem em frente, impossível não notar. É quando a menina descobre que o clown namora outra pessoa. Terminado o show, ele some. Ela fica parada, imóvel, procurando com os olhos por uma explicação, alguma coisa que faça sentido. Nada. Ele desaparece. Ele clown, ela palhaça.
Capítulo 3.
Borboleta lembra que possui o livro que ele emprestou. Livro de poesias, escrito por ele. E lembra, ainda, que ele só tem aquele exemplar. Corrigindo: que ele só tinha aquele exemplar. Tadinho.
Capítulo 4.
A pessoa estaciona o carro na Lagoa. Vai pra faculdade e na volta descobre que o carro foi assaltado. Por uma bandida loira. A bandida levou seus cds e seu sapato rosa. Não gostou da saia de renda preta. Entre os cds, Moreno +2. Eu, a Clara e Deus sabemos como foi difícil achar Moreno +2. A pessoa volta pra casa, desole, em seu carro-sauna. A pessoa chora e agora tem certeza que vai morrer afogada. Era o que faltava: vai vender o carro.
Capítulo 5.
Lendo poesia.
Pronto, vomitei.
Escrito por Julieta às 20h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|